Treinador de Futebol

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Passei toda vida ouvindo essa declaração dos treinadores de futebol: – Aqui ninguém se mete, quem escala o time sou eu. Sempre achei bizarra  essa afirmação. O que aconteceria com um gerente de uma empresa dizendo para o diretor: – Aqui mando eu, ninguém se mete na minha área! Provavelmente, seria demitido na hora.

Confesso que não percebo, entre os treinadores, muita competência sobre seus conhecimentos de futebol. No entanto, é perceptível seu despreparo e o quanto são atrapalhados no comando dos atletas. Fazem substituições faltando dez, cinco ou um minuto para acabar o jogo. Claro que o substituído não está lesionado. Talvez, já pensassem na troca, mas não o fizeram antes por temerem tirar de campo aquele jogador mais famoso. Expõem o atleta ao ridículo, mostrando que sua participação no jogo não é para valer.

Identifico convicção e segurança no treinador que percebe um jogador mal ou um esquema tático equivocado e  faz mudanças no primeiro tempo. Não espera pelo ritual conhecido de só fazer trocas no intervalo. Dá a impressão que nesse ínterim irá consultar os astros ou jogar “búzios” para saber qual a melhor decisão.

Gostaria de sinalizar o prejuízo desta postura de “quem manda aqui sou eu”. O profissional que assume este papel está se inviabilizando no que se refere a se permitir auxilio dos dirigentes, se as coisas forem mal. Ele se vende como o maioral e o todo poderoso.

Quando se incorpora um papel desses na vida, não poderemos dividir nossas dúvidas e inseguranças, pois pedir ajuda para essas pessoas é o mesmo que ser incompetente e frágil.

Por outro lado, dá a impressão que os dirigentes dos clubes se submetem  e acatam essas determinações dos treinadores. Nunca ouvi nenhum dirigente dizendo abertamente que também opina e sugere na escalação. Será que os dirigentes não entendem de futebol, ou fazem de conta que o  treinador é uma grande sumidade no assunto e que eles estão ali para cumprir suas ordens?  Se uma dessas hipóteses está certa, poderíamos entender porque pagam salários absurdamente elevados e multas rescisórias incompreensíveis. A bem da verdade, esses dirigentes nunca serão cobrados por atitudes que eventualmente lesem os clubes.

Bem, assumir-se onipotente e infalível é um fato corriqueiro da vida. Diga-se de passagem, na medicina não é comum os médicos chamarem um outro colega quando um caso não vai bem. Buscar uma consultoria poderia indicar para alguns incompetência. Por outro lado, os familiares do doente também ficam constrangidos em pedirem a opinião de um outro médico. O prejudicado é o pobre paciente. O jeito das pessoas conduzirem suas vidas é muito parecido, dentro e fora do campo. Em geral, nós acabamos acreditando que alguém fará um milagre e as coisas vão dar certo, “se Deus quiser”.

Dr. Nelio Tombini
Psiquiatra, psicoterapeuta e palestrante


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